Boa Notícia: Aprovação do Padrão Open XML na ISO

A ISO divulgou hoje que o padrão aberto de documentos Office Open XML é agora um padrão internacional mantido pela ISO, com o número ISO/IEC 29500. Após um processo de votação onde participaram 87 países, o padrão foi aprovado com ampla maioria de 75% dos votos dos países "P" (participantes) e 86% dos votos totais, não contando as abstenções.

Isto significa que o padrão de documentos usado pelo software de escritório mais popular do mundo (o Microsoft Office) está agora sobre o controle da ISO. É o final de um processo que começou em 2005, quando a Microsoft enviou para a ECMA o primeiro draft da especificação, e que onde mais de mil comentários para melhoria foram examinados só dentro da ISO. Poucos padrões foram tão rigorosamente examinados como o ISO 29500, e isto se reflete na qualidade do padrão agora finalmente aprovado.

A padronização na ISO é uma tremenda vitória para os usuários, que tem a garantia que os seus documentos podem ser abertos e processados de acordo com uma especificação pública, aberta e sob controle internacional. É uma vitória em especial dos usuários que necessitam assinar digitalmente e/ou criar fluxos de documentos, já que o formato Open XML suporta assinaturas digitais compatíveis com a ICP-Brasil e schemas customizados, recursos que não existem por exemplo em outros formatos com o ODF. Os usuários continuam tendo o direito de escolher o formato mais apropriado para os seus documentos, direito que queria ser cassado pela IBM (mais sobre isso a frente).

Mais significativamente, o Open XML "liberta" os usuários destes documentos de ter que usar Microsoft Office, permitindo que esses documentos possam ser criados e consumidos livremente (e facilmente) por outras aplicações. Mas que outras aplicações? Eu dividiria em dois grupos:

¦ Aplicações corporativas, desenvolvida em geral para organizar fluxos de documentos. Por exemplo, uma aplicação de reembolso de despesas pode agora receber como entrada uma planilha e extrair os seus dados para consumo, sem precisar ter o Microsoft Excel instalado. Ou um tribunal pode receber uma petição, ou gerar um acórdão, sem precisar comprar e instalar o Word no servidor. E sem claro precisar estar rodando sobre Windows.

(Por exemplo, está disponível aqui uma aplicação Web JSP, rodando com Linux e MySQL, que gera documentos Open XML).

¦ Suítes de escritório, inclusive as de código aberto como o KOffice e o OpenOffice, quem tem agora ao seu dispor uma documentação completa, aberta e pública em que se basear para interoperar com o Microsoft Office. Estas suítes podem ainda implementar esta interoperabilidade com a garantia que podem utilizar sem risco todas as patentes envolvidas, e que qualquer mudança no padrão terá que ser aprovada pela ISO em um processo público e aberto a todos os países. Não é a toa que o OpenOffice já anunciou o suporte ao Open XML na sua versão 3.0.

Neste processo ganham também a ISO e os órgãos nacionais de padronização, como a nossa ABNT, que se consolidam como o fórum onde os padrões relevantes para a indústria de TI são discutidos e aprovados. No caso do Brasil foi impecável o trabalho da ABNT na condução do processo, e é incrível ver como eles possuem a experiência (e a paciência) para procurar o consenso mesmo entre grupos com posições radicalmente diferentes. Para nós da Microsoft Brasil foi um grande aprendizado e vamos continuar trabalhando com a ABNT no aperfeiçoamento do Open XML.

E quem perde com a aprovação da ISO 29500? Perde basicamente a IBM, que surpreendentemente liderou um lobby maciço e sem precedentes contra a aprovação deste padrão, envolvendo centenas de funcionários e lobistas. Digo "surpreendentemente" porque a IBM tem uma enorme receita com o desenvolvimento de sistemas conectados e middlewares, e seria uma das grandes beneficiárias da adoção de padrões abertos e baseados em XML para representar documentos.

A IBM entanto resolveu apostar em uma estratégia mundial - a meu ver incrivelmente míope - de tentar ressuscitar a sua moribunda linha de suítes de escritório impondo a adoção do padrão ODF no setor público. Nos planos da IBM, a obrigação de usar o formato ODF tornaria irrelevante uma série de funcionalidades presentes no Microsoft Office que este formato não suporta (como assinaturas digitais), permitindo que um produto mais limitado como o Symphony pudesse competir no mercado.

Esta estratégia se apoiava em duas pernas: (1) o ODF deveria ser o único formato para documentos de escritório aprovado na ISO, e (2) legislação seria criada para forçar o uso de ODF pelos diversos governos. Durante os três últimos anos a IBM trabalho pesadamente para garantir estes dois pontos, e por isso era para ela vital que a ISO não aprovasse o padrão Open XML.

Nunca houve antes uma campanha tão ferrenha contra a elaboração de um padrão internacional. A ordem da IBM era clara: o Open XML não poderia ser aprovado de jeito nenhum. Não importava quais mudanças fossem feitas, o voto tinha que ser não. O lobby sem limites levou a algumas situações bizarras, como por exemplo um voto inicialmente submetido pelo Quênia ter sido escrito por um funcionário alemão da IBM - o sujeito enviou o voto em PDF e aparentemente se esqueceu de tirar o próprio nome dos metadados do arquivo! Ou a manobra no final para cassar os votos de todos os países de status O (observador) dados na reunião em Genebra, tentando anular os votos inclusive do Brasil nesta reunião.

Após o sucesso da reunião final em Genebra e a notícia que os países estavam votando em massa pela aprovação do padrão, o lobby contra a aprovação do Open XML começou a fazer acusações mirabolantes de fraude e corrupção contra vários órgãos nacionais de normatização que votaram a favor, como Noruega (!), Alemanha (!!) e até mesmo o prestigioso British Standards Institute (BSI) inglês (!!!). A IBM Brasil chegou até mesmo ao ponto de acusar a Microsoft de ter "estuprado" a ISO.

Tudo isso é muito lamentável, e é reconfortante saber que a ISO e os órgãos nacionais de normatização tomaram a decisão sensata mesmo em meio a toda esta histeria.

Se você usa o Office 2003, Office XP ou Office 2000, pode já começar a usar o formato Open XML instalando gratuitamente o Open XML Compatibility Pack.

Para assinar e visualizar assinaturas digitais em documentos Open XML, use o Assinador Digital open source desenvolvido pelo time do LTIA/UNESP.

Você pode começar a testar o OpenOffice 3.0 com suporte a documentos Open XML obtendo a versão M3.